Cartografias Insurgentes

11 a 18 de setembro 2011 – Rio de Janeiro

No Rio, o Laboratório de Cartografias Insurgentes

A partir da constatação de que as intervenções urbanas visando os megaeventos – Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016 – têm reorganizado a cidade e produzido efeitos como a remoção forçada e o despejo de milhares de pessoas, realizou-se em setembro último, no Morro da Conceição, Rio de Janeiro, o Laboratório de Cartografias Insurgentes, organizado pelo coletivo IP:// (Interface Pública), com o objetivo de imaginar e produzir mapas críticos ligados à ocupação do território urbano e às lutas que o moldam.

A proposta do projeto é dialogar com a população local e todos os interessados, expondo e problematizando essas mudanças, para discutir coletivamente alternativas. O encontro teve como centro o debate e a experimentação sobre as reconfigurações da cidade e as dinâmicas de resistência, nos campos da política, estética e cultura. A ideia e permitir que as violações de direitos, embora consideradas e analisadas a sério, fossem mapeadas a partir dos focos de resistência, como uma correlação de forças em disputa, de modo a reformular criticamente o território a partir de suas contradições.

Na semana que antecedeu o encontro, houve uma série de oficinas e debates preparatórios no chamado “Pré-Lab”. Ele incluiu uma visita à zona de intervenção do projeto Porto Maravilha, chamada de deriva maravilha, com o fim de “desorientar o participante, que deixa-se levar pelas solicitações do terreno”. O Pre-Lab promoveu também uma oficina de guerrilha de comunicação, animada, entre outros, por participantes dos movimentos 15M e Democracia Real Ya (Espanha), com foco nas possibilidades e ferramentas de mobilização social via internet.

Militantes, pesquisadores, ativistas, comunicadores, artistas e movimentos sociais puderam trazer ao campo da visibilidade as ações violentas e autoritárias nas grandes obras para Copa e Olimpíadas, que permaneciam ocultadas por governos e os demais interessados em uma “cidade dos megaeventos”. O Laboratório se propôs cartografar não apenas as remoções forçadas, mas os fluxos ligados aos movimentos, artes, lutas. Ou seja, uma cidade que não aparece na mídia tradicional, vista a partir da cotidianidade da rua onde se expressam os conflitos, com o olhar voltado às resistências e alternativas.

Os mapas produzidos junto aos movimentos de moradia tornaram-se ferramentas para contextualizar tais conflitos territoriais, como mais uma forma de resistência criativa a este projeto de cidade em curso, que não apresenta canais de participação para aqueles diretamente afetados pelas intervenções. Assim, os grupos reunidos no Laboratório tomaram as armas do inimigo para com elas produzir alternativas para combatê-lo, a partir de cartografias que fornecem novo significado às disputas territoriais em jogo.

Um dos grupos participantes, o Coletivo Baobá traduziu a iniciativa como a produção de uma ferramenta de luta comum: “cartografias críticas, usadas como tática política de engenharia reversa no sistema e na própria ideia de geografia, propõem uma descolonização de saberes, um resgate de territórios e memórias paralelos à visualização das lutas vivas locais, unindo-as sob novas vizinhanças globais, num outro exercício de poder.”

Outra ferramenta formulada para publicizar o que acontece na cidade, o Olimpi(c)Leaks foi apresentado no último dia do Laboratório. Trata-se de um banco de dados que busca tornar públicos documentos referentes às violações de direitos humanos, resultantes das remoções forçadas e ilegais e dos conflitos territoriais na cidade do Rio de Janeiro. Inspirada no Wikileaks, a iniciativa tem caráter colaborativo e a identidade dos colaboradores é preservada.

O Laboratório de Cartografias Insurgentes foi a fase inicial de um trabalho criativo de médio e longo prazo para a construção de cartografias críticas e afetivas, em intercâmbio com grupos da Argentina, Espanha, Colombia, Amazônia e outros. A partir de agora, os movimentos querem dar continuidade às atividades, dividindo tarefas em grupos de trabalho, para manter a colaboração em rede, a alimentação dos bancos de dados e das ferramentas de mapeamento colaborativo, junto às populações afetadas.

Juliana Machado

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